- Analisar o contexto e encontrar uma ilha de acordo.
- Compreender a posição, o raciocínio e as motivações do interlocutor.
- Mapear a rede de influência e fixar objetivos, margens e linhas vermelhas.
1Analisar o contexto e encontrar a ilha de acordo
Uma negociação prepara-se primeiro com factos: quem controla o quê, incidentes recentes, necessidades, perceção da organização. Estes factos devem ser verificados e partilhados com a equipa.
O CCHN propõe construir uma ilha de acordo: a lista dos pontos em que já está de acordo com o interlocutor, muitas vezes factos («há crianças doentes na aldeia») e valores partilhados («as crianças não devem morrer por falta de cuidados»). Começa-se a reunião por esta ilha, que cria confiança, antes de abordar os desacordos.
Distinga os factos contestados (a esclarecer, sem polémica) das normas divergentes (que não se debatem de frente: não convencerá um comandante a mudar os seus valores numa reunião).
2O icebergue: posições, raciocínios, motivações
O que o interlocutor diz é apenas a ponta do icebergue:
- a posição: «Ninguém atravessa esta ponte»;
- o raciocínio (o porquê tático): «Combatentes inimigos escondem-se entre os civis»;
- as motivações e valores (o porquê profundo): a segurança das suas tropas, a sua reputação junto dos superiores, o apoio da população.
Faça o mesmo exercício para a sua própria organização. A negociação avança quando se procuram opções que respondem às motivações das duas partes: por exemplo, uma passagem a hora fixa, com uma lista de viaturas enviada com antecedência e uma inspeção rápida, pode responder à preocupação de segurança sem renunciar ao acesso.
3A rede de influência
Um interlocutor nunca está sozinho: obedece a superiores e é influenciado por familiares, líderes religiosos, comerciantes e pela população. Mapeie esta rede: quem influencia o seu interlocutor, sobre que temas, e que relações a sua organização já mantém com essas pessoas.
- Identifique os aliados potenciais (um líder comunitário que quer o regresso da clínica) e os opositores.
- Coordene-se com as outras organizações (OCHA, grupo de trabalho sobre o acesso) para evitar mensagens contraditórias.
- Passe pelo nível certo: um problema levantado por um guarda num posto de controlo resolve-se muitas vezes com o seu superior.
4Objetivos, margens, linhas vermelhas e soluções de recurso
Antes da reunião, anote com o seu mandante:
- o objetivo ideal e o resultado mínimo aceitável;
- as margens: o que pode conceder (horários, itinerários, informação prévia, visibilidade reduzida);
- as linhas vermelhas: o que recusará aconteça o que acontecer (escolta armada imposta, entrega de listas de beneficiários, pagamento, desvio de parte da ajuda, exclusão de um grupo);
- a sua melhor alternativa se nenhum acordo for possível (outro itinerário, um parceiro local aceite, advocacia a um nível superior, suspensão temporária).
Prepare também cenários: o que fará se o interlocutor aceitar, recusar ou impuser uma condição inesperada?
Métodos detalhados, um exemplo completo, ferramentas, erros frequentes e perguntas de entrevista.
5A preparação passo a passo: calendário, papéis e fontes
Os negociadores experientes consideram geralmente que a preparação representa o essencial do trabalho: uma hora de reunião importante exige várias horas de preparação à equipa de apoio e, por vezes, vários dias no caso de uma negociação de nível intermédio. O método abaixo organiza essa preparação para uma negociação significativa (acesso de uma nova atividade, levantamento de um bloqueio duradouro, acordo sobre modalidades com uma autoridade). Para a passagem corrente de um posto de controlo, reduz-se a uma ficha de reflexos.
Calendário-tipo de uma negociação de nível intermédio
| Momento | Atividade | Responsável | Produto |
|---|---|---|---|
| D-10 a D-7 | Recolha dos factos: incidentes de acesso dos últimos 90 dias, controlo territorial, necessidades, historial das relações com o interlocutor | Equipa de apoio (responsável de ligação, analista de segurança, responsável de programa) | Nota de contexto de duas páginas |
| D-7 a D-5 | Ilha de acordo, icebergue das duas partes, rede de influência | Negociador e equipa de apoio, em sessão de trabalho de 2 a 3 horas | Quadros de análise |
| D-5 a D-4 | Ficha de mandato: objetivo, mínimo aceitável, margens, linhas vermelhas, solução alternativa | Negociador e mandante | Ficha validada por escrito (um correio eletrónico basta) |
| D-4 a D-3 | Consulta dos pares e do grupo de trabalho sobre o acesso; verificação da coerência com outras negociações em curso | Negociador ou responsável de acesso | Pontos da posição comum a respeitar |
| D-3 a D-2 | Cenários e ensaio (simulação com um colega que faz de interlocutor) | Equipa de negociação | Árvore de cenários, frases-chave |
| D-2 a D-1 | Plano de segurança da reunião, logística, briefing do intérprete | Ponto focal de segurança, negociador | Plano de movimento, lista de contactos, critérios de cancelamento |
| D | Reunião | Equipa de negociação | Notas |
| D (à noite) | Debriefing e relatório | Negociador e segundo negociador | Relatório ao mandante |
As fontes da análise de contexto
- Dados de incidentes de acesso: o OCHA classifica os constrangimentos de acesso em nove categorias no seu quadro de monitorização e reporte do acesso (Access Monitoring and Reporting Framework): negação da existência de necessidades ou do direito à assistência; restrições à entrada no país; restrições de movimento no interior do país; ingerência na execução das atividades; violência contra o pessoal, os bens e as instalações humanitárias; restrições ao acesso das populações aos serviços; operações militares e hostilidades; presença de minas e de engenhos por explodir; obstáculos ligados ao ambiente físico. Utilizar a mesma classificação na análise interna permite comparar os próprios dados com os do grupo de trabalho sobre o acesso.
- Análise de segurança da organização e dos fóruns inter-ONG de segurança, quando existem.
- Dados de programa: necessidades, cobertura, resultados da responsabilização e dos inquéritos de perceção.
- Memória institucional: registo das negociações e dos acordos anteriores com este interlocutor, relatórios anteriores.
- Fontes abertas: declarações públicas do interlocutor, imprensa local, redes sociais, comunicados do grupo armado. A sua leitura diz muito sobre as preocupações de reputação e sobre o vocabulário a utilizar.
- Informadores: pessoal nacional, líderes comunitários, comerciantes, outras organizações. Cruzar sempre pelo menos duas fontes independentes para um facto que fundamente uma decisão.
Qualificar a fiabilidade da informação
Uma grelha simples, inspirada nas práticas da análise de informações e utilizada por numerosas células de análise humanitária, classifica separadamente a fiabilidade da fonte (de A, fiável pela experiência, a D, desconhecida ou duvidosa) e a credibilidade da informação (de 1, confirmada por outra fonte, a 4, improvável). Uma afirmação «B2» (fonte geralmente fiável, informação provável) pode fundamentar uma preparação; uma afirmação «D4» nunca deve ser apresentada ao interlocutor como um facto.
O negociador deve poder dizer, para cada facto que apresentar à mesa, de onde vem e até que ponto é seguro. Um único facto inexato pode arruinar a credibilidade construída ao longo de meses.
6As ferramentas de análise do CCHN aplicadas com rigor
O Manual de terreno do CCHN propõe uma sequência de ferramentas para o negociador (análise do contexto e do interlocutor), para a equipa de apoio (rede de influência e alavancas) e para o mandante (mandato e limites). O curso de base apresentou-as; trata-se aqui de as utilizar com a precisão que se espera de um responsável de acesso.
A ilha de acordo: quatro quadrantes, não dois
O erro comum é enumerar vagamente «pontos de acordo». A ferramenta distingue a natureza do elemento (facto ou norma) e o seu estatuto (partilhado ou contestado). Cada casa preenche-se com formulações que se poderiam pronunciar diante do interlocutor.
| Partilhado | Contestado | |
|---|---|---|
| Factos | Factos convergentes: o que as duas partes reconhecem como verdadeiro. Base da abertura da conversa. | Factos contestados: a clarificar através de perguntas, dados, uma visita conjunta. Não se debatem à força. |
| Normas | Normas convergentes: valores partilhados (proteger as crianças, honrar os mortos, tratar os feridos). Base da legitimidade do pedido. | Normas divergentes: não as enfrentar na conversa; tratá-las a longo prazo ou por outros canais. |
Regra prática: abre-se com pelo menos três elementos convergentes, clarifica-se um facto contestado de cada vez e nunca se coloca uma norma divergente no centro da negociação de terreno.
O icebergue para as duas partes
O CCHN apresenta três níveis: a posição (o que é pedido, o quê), o raciocínio (os argumentos táticos, o como) e as motivações (valores, interesses, necessidades, o porquê). Dois pontos distinguem uma utilização profissional:
- Constrói-se também o icebergue da própria organização. O negociador descobre muitas vezes que a posição da sua organização («acesso sem condições a todos os locais») esconde motivações negociáveis (chegar aos casos de desnutrição grave antes da estação das chuvas) que abrem opções.
- Formulam-se várias hipóteses de motivações, com um índice de confiança, e preparam-se perguntas para as verificar durante a conversa. O icebergue não é uma certeza, é um plano de escuta.
Os contributos da negociação baseada em princípios
O método de Fisher e Ury complementa utilmente as ferramentas do CCHN com três noções:
- A melhor alternativa a um acordo negociado (MAPAN, BATNA em inglês): o que cada parte fará na falta de acordo. É preciso avaliá-la para si próprio, mas também para o interlocutor: um comandante cuja melhor alternativa é uma população descontente e um hospital vazio não está na mesma situação que um comandante a quem o statu quo convém.
- A zona de acordo possível: o espaço entre os mínimos aceitáveis de cada parte. Se os mínimos não se sobrepõem, nenhuma técnica de conversa produzirá acordo: é preciso mudar de interlocutor, de nível, de opção ou de calendário.
- Os critérios objetivos: apoiar-se em referências exteriores às partes (protocolos médicos, normas Esfera, regras aplicadas noutros setores, prática das outras organizações) para sair de um braço de ferro. Exemplo: «A norma Esfera prevê no máximo 50 consultas por clínico e por dia; é por isso que precisamos de dois clínicos e não de um só.»
A ficha de perfil do interlocutor
Para cada interlocutor importante, a equipa de apoio mantém uma ficha de perfil atualizada após cada contacto:
| Rubrica | Exemplos de conteúdo |
|---|---|
| Função e autoridade real | Pode decidir sozinho? Sobre que assuntos? Quem o pode destituir? |
| Percurso | Origem, antiguidade, experiência anterior com as organizações humanitárias |
| Estilo de comunicação | Formal ou informal, língua preferida, importância dos cumprimentos, relação com o tempo |
| Preocupações conhecidas | Segurança dos seus homens, reputação, recursos, controlo da população |
| Historial com a organização | Acordos cumpridos ou não, incidentes, pedidos anteriores |
| Sensibilidades | Assuntos a evitar, pessoas a não mencionar |
Estas fichas são dados sensíveis: acesso restrito, nada de armazenamento num telemóvel pessoal, nada de transmissão por mensagens não encriptadas, redação factual e não ofensiva (podem ser apreendidas durante uma busca ou um controlo).
7Cartografar e mobilizar a rede de influência
A rede de influência não é um organigrama: descreve quem pode fazer evoluir a posição do interlocutor, sobre que assunto e por que canal. O CCHN distingue a cartografia (quem influencia quem) e a mobilização (como pode a organização, de forma legítima e transparente, apoiar-se nessas influências).
Método em cinco etapas (sessão de trabalho de 2 horas)
- Enumerar os atores em torno do interlocutor: hierarquia (superiores, pares, subordinados), círculo próximo (família, clã), autoridades religiosas e tradicionais, atores económicos, população, aliados e adversários externos, outras organizações humanitárias, meios de comunicação social.
- Classificar a influência de cada ator sobre o interlocutor relativamente ao objeto preciso da negociação, de 1 (fraca) a 5 (determinante). Um mesmo ator pode ser muito influente em matéria de segurança e não ter peso nenhum no recrutamento.
- Classificar a posição presumida de cada ator sobre o objeto, de -2 (contrário) a +2 (favorável).
- Classificar a relação existente da organização com cada ator, de 0 (nenhuma) a 3 (relação de confiança estabelecida).
- Decidir uma ação para os atores com forte influência: informar, consultar, pedir um conselho, solicitar uma mediação ou simplesmente acompanhar.
Leitura do mapa
| Perfil | Interpretação | Ação-tipo |
|---|---|---|
| Influência forte, posição favorável, relação forte | Aliado potencial | Pedir conselho sobre a forma de abordar o interlocutor; eventualmente solicitar uma apresentação ou a sua presença na reunião |
| Influência forte, posição favorável, relação fraca | Oportunidade | Construir a relação antes da negociação (visita de cortesia, apresentação das atividades) |
| Influência forte, posição contrária | Risco maior | Compreender o seu icebergue; procurar neutralizar os seus receios; nunca o contornar ostensivamente |
| Influência fraca, posição contrária | Ruído | Acompanhar, sem investir tempo excessivo |
As regras da mobilização
- Transparência: não se manipula, não se utiliza pressão oculta. Pedir a um líder religioso que explique a um comandante a utilidade de uma clínica é legítimo; pedir-lhe que transmita ameaças não o é.
- Proteção dos intermediários: um intermediário exposto como «aliado da ONG» pode ser ameaçado. Avalia-se o seu risco antes de o solicitar e respeita-se a sua recusa.
- Nada de contornos humilhantes: passar por cima de um interlocutor pode resolver um problema pontual e criar um inimigo duradouro. Quando se sobe ao nível superior, faz-se preservando a face do interlocutor («compreendo que não recebeu instruções; vamos pedir que lhe sejam enviadas»).
- Coerência: informam-se as outras organizações sobre os intermediários solicitados, para evitar que um mesmo chefe tradicional seja abordado por cinco ONG com cinco mensagens diferentes.
- Não criar dependência: um acesso que só se mantém graças a uma única pessoa desmorona-se com ela. Diversificar as relações a cada nível.
Um indicador simples da solidez do acesso: para cada zona, quantos canais independentes pode a organização ativar em menos de 24 horas para levantar um bloqueio? Um único canal é uma vulnerabilidade; três canais independentes a níveis diferentes são um objetivo razoável.
8Exemplo completo: preparar a retoma das clínicas móveis de Moranga
O contexto é fictício. No distrito de Moranga (cerca de 95 000 habitantes), a ONG «Secours et santé de la vallée» (SSV) gere três clínicas móveis que realizavam 5200 consultas por mês e acompanhavam 340 crianças em tratamento da desnutrição aguda grave. Há 12 dias, o comandante Barek, que controla o cruzamento de Tessaline por conta de uma milícia de autodefesa, proibiu a passagem dos veículos da SSV depois de um veículo alugado por outra organização ter sido visto a transportar um homem procurado pela milícia. Desde então, 138 crianças em tratamento não receberam os seus produtos terapêuticos. A estação das chuvas começa dentro de cinco semanas e cortará a picada de desvio.
Etapa 1: os factos verificados (nota de contexto, D-8)
| Facto | Fonte | Classificação |
|---|---|---|
| O bloqueio visa todos os veículos de ONG, e não apenas os da SSV | Duas ONG, motoristas da SSV | A1 |
| O homem transportado era irmão de um motorista da outra ONG e estava a ser levado para o hospital | Outra ONG, chefe de aldeia | B2 |
| O comandante Barek perdeu dois homens numa emboscada há três semanas | Imprensa local, informador | B2 |
| Barek responde perante o conselho de segurança do município, presidido pelo presidente da câmara | Pessoal nacional da SSV | B2 |
| A mulher de Barek foi tratada pela clínica móvel no ano passado | Informador único | C3: não utilizar à mesa |
Etapa 2: a ilha de acordo
| Partilhado | Contestado | |
|---|---|---|
| Factos | As crianças das aldeias para lá do cruzamento são tratadas pelas clínicas; as chuvas estão a chegar; a milícia sofreu baixas | As ONG transportam «pessoas procuradas»; a SSV não controla os seus veículos |
| Normas | As crianças doentes devem ser tratadas; a segurança dos habitantes é uma prioridade; não se trai a hospitalidade | O direito da milícia de controlar quem circula; o direito de qualquer ferido, incluindo um adversário, a ser transportado e tratado |
Etapa 3: os icebergues
| Nível | Comandante Barek (hipóteses) | SSV |
|---|---|---|
| Posição | «Nenhum veículo de ONG volta a passar o cruzamento.» | «Retoma imediata das três clínicas sem condições.» |
| Raciocínio | Os veículos de ONG não são controlados; os inimigos podem servir-se deles; perdeu dois homens | As crianças em tratamento correm risco de morte; o acesso é garantido pelos princípios |
| Motivações | Proteger os seus homens; não perder a face perante eles e perante o conselho de segurança; manter o apoio das aldeias (confiança: média) | Retomar o tratamento de 138 crianças antes das chuvas; preservar a aceitação; não criar um precedente de controlo dos doentes |
Etapa 4: a rede de influência
| Ator | Influência (1-5) | Posição (-2 a +2) | Relação com a SSV (0-3) | Ação |
|---|---|---|---|---|
| Presidente da câmara, presidente do conselho de segurança | 4 | +1 | 2 | Encontro prévio em D-5 para apresentar a proposta e perguntar-lhe como abordar Barek |
| Chefes das quatro aldeias em causa | 3 | +2 | 3 | Informá-los; um dos chefes aceita estar presente na reunião |
| Adjunto de Barek no cruzamento | 2 | -1 | 1 | Incluí-lo no procedimento de inspeção proposto, para que tenha um papel |
| Imã de Tessaline | 3 | +1 | 1 | Visita de cortesia, sem pedido explícito |
| Outra ONG envolvida no incidente | 2 | 0 | 2 | Coordenação: reconhece o incidente e aceita não negociar separadamente |
| Comando militar regional | 2 | -1 | 2 | Não solicitar: a sua intervenção humilharia Barek |
Etapa 5: a ficha de mandato
| Rubrica | Conteúdo |
|---|---|
| Objetivo ideal | Retoma das três clínicas logo na semana seguinte, com um procedimento de passagem estável |
| Mínimo aceitável | Retoma imediata de uma clínica para a distribuição dos produtos terapêuticos, período experimental de duas semanas e reavaliação posterior |
| Margens | Lista dos veículos, matrículas e nomes do pessoal comunicada na véspera no cruzamento; inspeção visual dos veículos (sem revista dos processos clínicos); horários fixos às 7h30 e às 15h00; nenhum passageiro alheio ao pessoal da SSV; apenas veículos propriedade da SSV, sem aluguer neste eixo |
| Linhas vermelhas | Nenhuma lista de doentes; nenhuma recusa de transportar um ferido ou doente grave, seja qual for a sua pertença, com notificação ao posto; nenhum membro da milícia a bordo; nenhum pagamento |
| Solução alternativa | Distribuição dos produtos terapêuticos pelos agentes de saúde comunitária a pé através da picada de desvio, com cobertura estimada de 60 % das crianças em tratamento, impossível após o início das chuvas; advocacia junto do conselho de segurança |
Etapa 6: a árvore de cenários
- Barek aceita a proposta: reformular, acordar uma data para a primeira passagem e um ponto de contacto, informar o chefe de aldeia presente; relatório no próprio dia.
- Barek aceita, mas exige um miliciano a bordo: recusar (linha vermelha), propor em alternativa a presença do seu adjunto durante a inspeção e uma chamada rádio à partida e no regresso.
- Barek exige um controlo dos doentes transportados: explicar a regra médica, propor a notificação ao posto da transferência de um doente sem identidade nem diagnóstico; em caso de recusa, consultar o mandante.
- Barek recusa tudo: perguntar o que lhe permitiria reconsiderar, propor voltar com o presidente da câmara; ativar a solução alternativa logo no dia seguinte.
- Tensão ou ameaça: terminar educadamente, sair, reportar; não voltar sem uma reavaliação de segurança.
Resultado
A reunião, realizada em casa do chefe da aldeia de Sarou na presença do chefe e do adjunto de Barek, durou 1h40. Barek aceitou a retoma de duas clínicas a título experimental, com o procedimento de lista e de inspeção, e começou por exigir um miliciano a bordo. O negociador propôs a chamada rádio à partida e no regresso; Barek aceitou depois de uma pausa. A terceira clínica retomou três semanas mais tarde. Ao fim de seis semanas, 97 % das saídas previstas tinham sido realizadas, e o tempo médio de espera no cruzamento tinha passado de 40 para 12 minutos. As 138 crianças foram revistas; 11 foram transferidas para internamento devido a complicações.
O ponto decisivo não foi um argumento, mas uma opção que respondia à motivação de Barek (proteger os seus homens sem perder a face) sem tocar nas linhas vermelhas da SSV: o procedimento de inspeção deu um papel ao seu adjunto, e a decisão pôde ser apresentada como sendo dele.
9Preparar a segurança da reunião e as condições de rutura
Qualquer reunião de negociação com uma parte armada ou com uma autoridade hostil, ou realizada num local não controlado, é um movimento de risco. Enquadra-se no plano de segurança da organização e no seu dever de cuidado para com o pessoal. A preparação de segurança não se delega à última hora ao motorista.
Lista de verificação antes de uma reunião de risco
| Elemento | Pergunta a verificar | Responsável |
|---|---|---|
| Local | Local neutro ou aceite pelas duas partes? Possibilidade de sair livremente? Distância até à base, itinerário alternativo de regresso? | Ponto focal de segurança |
| Composição | Pelo menos duas pessoas? Perfis adequados (língua, sexo, pertença percebida)? Nenhuma pessoa exposta devido à sua origem? | Negociador e mandante |
| Comunicação | Meios de comunicação redundantes (telefone, rádio, telefone satélite)? Horários das chamadas de controlo? Palavras de código acordadas? | Responsável de rádio |
| Cancelamento | Critérios de não partida e de interrupção conhecidos de todos (mudança de local imposta à última hora, recusa de retirar os homens armados, combates assinalados, atraso do interlocutor para além de um limite fixado) | Ponto focal de segurança |
| Retenção | Prazo a partir do qual a ausência de contacto desencadeia o procedimento de crise; quem alerta quem; documentos de identificação e prova de vida atualizados no dossiê de crise | Chefe de missão |
| Documentos | Transportar apenas o estritamente necessário; nenhuma ficha de perfil, nenhuma lista de beneficiários, nenhum telefone com dados sensíveis | Negociador |
| Presentes e hospitalidade | Regra da organização sobre presentes (aceitar o chá, recusar presentes de valor; oferecer apenas objetos simbólicos autorizados) | Negociador |
Definir antecipadamente as condições de rutura
O momento em que se abandona uma negociação decide-se antes da conversa, não sob pressão. As condições de rutura típicas são: uma ameaça contra um membro da equipa; uma exigência que ultrapassa uma linha vermelha e que é mantida depois de explicada; uma mudança da natureza da reunião (presença não anunciada de meios de comunicação social, presença de um terceiro que expõe a organização, gravação em vídeo); sinais de escalada (álcool, armas manuseadas, cólera não contida). A saída faz-se sempre preservando a relação: «Agradeço-lhe ter-me recebido. Tenho de informar a minha direção; voltaremos a contactá-lo.»
O negociador que teme pela sua segurança concede mais, por vezes sem se aperceber. A preparação de segurança não é, portanto, apenas uma proteção: é uma condição da qualidade da negociação.
10Erros frequentes, variações de contexto, perguntas de entrevista e referências
Erros frequentes na preparação
| Erro | Sinal de alerta | Correção |
|---|---|---|
| Preparar a posição e não as motivações | A ficha de preparação só contém «o que queremos» | Icebergue das duas partes, hipóteses a verificar |
| Confundir rumor e facto | Nenhuma fonte nem classificação na nota de contexto | Classificação sistemática, duas fontes para qualquer facto decisivo |
| Subestimar a autoridade real do interlocutor | Acordo obtido e depois não aplicado pelos postos | Análise da cadeia de comando; perguntar quem deve ser informado do acordo |
| Ignorar a alternativa do interlocutor | Surpresa perante uma recusa «irracional» | Avaliar o que o statu quo lhe traz |
| Não fixar um mínimo aceitável | Acordo medíocre aceite por cansaço | Mínimo escrito na ficha de mandato |
| Preparar sozinho | Pontos cegos culturais ou políticos | Sessão de trabalho com pessoal nacional, segurança, programa |
| Esquecer a coordenação | Outra ONG negoceia no mesmo dia com o mesmo interlocutor | Contacto sistemático com o grupo de trabalho sobre o acesso |
Variações consoante o contexto
- Crise súbita: a preparação cabe em 30 minutos; utilizar uma ficha de reflexos de uma página (factos, ilha, objetivo, mínimo, linhas vermelhas, solução alternativa, segurança) e completar a análise posteriormente.
- Crise prolongada: a preparação assenta no historial; manter um registo das negociações por interlocutor, com os compromissos e o seu cumprimento, para evitar renegociar o que já foi adquirido.
- Campo: a rede de influência inclui os comités e os líderes de secção, as autoridades de gestão do campo e a segurança; atenção aos líderes autoproclamados que se apropriam da representação.
- Meio urbano: a cartografia faz-se por bairro, ou mesmo por rua; os atores económicos (transportadores, comerciantes) são muitas vezes mais influentes do que as autoridades formais.
- Gestão remota: a preparação é partilhada entre a sede ou a capital (análise, mandato) e a equipa local (factos, rede); prever uma chamada de preparação e uma chamada de debriefing estruturadas.
- Parceiro local: formar o parceiro nas ferramentas, deixar-lhe o domínio da análise da rede que conhece melhor, mas partilhar a responsabilidade pelas linhas vermelhas e pela segurança.
Perguntas de entrevista e elementos de uma resposta sólida
- «Como prepara uma negociação de acesso?» Esperado: sequência factos, ilha de acordo, icebergue, rede, mandato com mínimo e solução alternativa, coordenação, cenários, segurança; menção do tempo necessário e dos papéis.
- «Dê um exemplo em que descobriu uma motivação oculta do seu interlocutor.» Esperado: um caso concreto, a forma como a hipótese foi formulada e verificada através de perguntas, e a opção que daí resultou.
- «Como avalia a fiabilidade das informações com base nas quais negoceia?» Esperado: cruzamento das fontes, classificação, prudência com os factos não verificados, papel do pessoal nacional.
- «O que faz se os mínimos das duas partes não se sobrepuserem?» Esperado: mudar de opção, de nível, de interlocutor ou de calendário; mobilizar a rede; ativar a solução alternativa; não forçar um acordo para além do mandato.
- «Como prepara a segurança de uma reunião com um grupo armado?» Esperado: local, composição, comunicações, critérios de cancelamento e de rutura, procedimento em caso de retenção, documentos transportados.
Referências essenciais
- CCHN, Field Manual on Frontline Humanitarian Negotiation (Manual de terreno sobre a negociação humanitária de primeira linha), 2019, módulos sobre a análise do contexto, a ilha de acordo, o icebergue e a rede de influência.
- OCHA, Access Monitoring and Reporting Framework e as suas nove categorias de constrangimentos de acesso.
- OCHA, Humanitarian Negotiations with Armed Groups: A Manual for Practitioners, 2006, capítulos sobre a preparação.
- Fisher, Ury e Patton, Como Conduzir uma Negociação.
- Global Interagency Security Forum, Security Risk Management: a basic guide for smaller NGOs, 2017.
- Humanitarian Policy Group (ODI), Talking to the Other Side: Humanitarian Engagement with Armed Non-State Actors, 2012.
- Associação Esfera, Manual Esfera, 2018, normas de saúde (carga de trabalho dos clínicos) e princípios de proteção.
Preparar o encontro com o comandante
Base de terreno, na véspera de uma reunião
Com a sua equipa, prepara o encontro com um comandante que bloqueia uma estrada há dez dias.
O comandante diz que os camiões das ONG estragam a estrada e transportam «sabe-se lá o quê». Um chefe de aldeia vizinho, respeitado, deseja que as distribuições sejam retomadas. O seu chefe de missão deu-lhe o mandato.
Decisão 1 de 3Que ilha de acordo prepara?
Decisão 2 de 3Que opção responde às suas preocupações?
Decisão 3 de 3Que papel dá ao chefe de aldeia?
O que reter
Preparar uma ilha de acordo, opções que respondam às motivações do interlocutor e o apoio prudente da rede de influência.
Exercício: a ficha de preparação
Escolha uma negociação real ou plausível. Preencha uma ficha de uma página: factos verificados, ilha de acordo (três pontos), icebergue do interlocutor e da sua organização, três pessoas da sua rede de influência, objetivo ideal, resultado mínimo, duas margens, duas linhas vermelhas, melhor alternativa.
A reter
- Começar pela ilha de acordo: factos partilhados e valores comuns.
- Icebergue: posição visível, raciocínio, motivações profundas.
- Mapear a rede de influência e coordenar-se com as outras organizações.
- Fixar com o mandante: objetivo, mínimo aceitável, margens, linhas vermelhas.
- Preparar sempre uma melhor alternativa e cenários.
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Para saber mais: referências da formação
- Centro de Competência em Negociação Humanitária (CCHN) (2019). Manual de campo do CCHN sobre a negociação humanitária na linha da frente. frontline-negotiations.org
- OCHA (G. McHugh e M. Bessler) (2006). Negociações humanitárias com grupos armados: manual para profissionais. www.unocha.org
- CICV (2005). Regra 55: acesso da ajuda humanitária (direito internacional humanitário consuetudinário). ihl-databases.icrc.org/fr/customary-ihl/v1/rule55
- R. Fisher, W. Ury e B. Patton (1981). Como chegar ao sim: a negociação de acordos sem concessões. www.pon.harvard.edu
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